Literatura e loucura

[Sobre influenciar (ou não) leituras e a relação entre instabilidade mental e criação]

Foto: arquivo pessoal

Uma das coisas mais legais para mim, que gosto de literatura e escrevo sobre esse tema, é saber que alguém leu um livro por influência minha. Quando a pessoa gosta do livro, então, é a glória. Meu case de maior sucesso aconteceu com um amigo que é hiperativo e vivia dizendo que não conseguia ler nada, que não se concentrava, aquela coisa toda. “Se eu começar a ler e passar uma mosca do meu lado, já perco a concentração e passo a acompanhar a mosca”, ele dizia.

Bem, pela minha experiência, o gênero literário que mais tem potencial de prender a atenção é o romance policial. Então perguntei se ele já havia lido Raphael Montes (poderia ter ido para Agatha Christie, mas preferi indicar algo mais atual, porque achei que funcionaria melhor para ele). Não, ele não conhecia Raphael Montes. Então emprestei meu exemplar de Dias Perfeitos, o primeiro que li do autor e que me impressionou (assustou, assombrou) muito. O resultado foi que comecei a receber fotos do meu amigo lendo nos intervalos do trabalho, quase sempre com a legenda: eu te odeio, ou a culpa é sua, coisas assim. Quer dizer, ele estava me odiando porque não conseguia parar de ler – ótimo. Mas não parou por aí. Ele emendou um livro no outro, virou um superfã de Raphael Montes e já leu quase todos os livros do autor.

Porém, não é sempre que a gente acerta. No fim do ano passado comprei o livro O perigo de estar lúcida (Ed. Todavia, 2023, Trad. Mariana Sanchez), da autora espanhola Rosa Montero. Eu já havia lido outros livros dela e gostado muito de todos. O perigo de estar lúcida é um ensaio sobre a relação entre criatividade e instabilidade mental (o que é popularmente chamado de loucura). Rosa entrelaça estudos na área da psicologia e da neurociência com as biografias de grandes artistas atormentados por suas mentes, além de falar de sua própria experiência. Um tema fascinante (para mim) e que eu achei que poderia interessar a duas amigas que também são ligadas à arte. Falei sobre o livro para elas, que realmente se interessaram e compraram. Iríamos ler juntar e conversar sobre o tema.

Acontece que logo de início uma delas se irritou com a Rosa Montero, dizendo que a autora falava muito sobre si mesma. Eu entendi a reclamação e até concordei a princípio, porque também esperei, um tanto ingenuamente, que o início do livro fosse um pouco diferente. E eu digo ingenuamente porque, como disse, já havia lido a autora antes e seus ensaios são, sim, pessoais (e talvez seja isso o que mais me atrai nela). Apesar disso, entendi a reclamação da minha amiga, porque a parte inicial do livro é realmente um pouco repetitiva. Parece que a Rosa quer convencer o leitor (e a si mesma, talvez) a todo custo da sua (dela) loucura. Tem hora que dá vontade de falar: Ok, Rosa, já entendi que você é louca, podemos seguir adiante? Com todo respeito, claro.

A segunda amiga até estava gostando e fazia comentários positivos, mas nada foi suficiente para acalmar os ânimos da primeira. Rosa Montero ganhou uma inimiga. Tentei a todo custo defender, dizer que os textos dela eram assim mesmo, que mais pra frente o livro melhorava (eu estava mais adiantada na leitura), mas nada adiantou. As duas acabaram desanimando e eu fui a única a terminar o livro.

Organizar o caos da existência


“Eu escrevo como se fosse para salvar a vida de alguém. Provavelmente minha própria vida.” – Clarice Lispector

Eu não concordo com tudo o que a Rosa traz nessa obra, principalmente porque em alguns momentos parece que ela simplifica muito a relação entre escrita e transtornos mentais, criando generalizações incômodas. Apesar disso, gostei de muitas partes do livro, principalmente quando ela conta histórias de outros artistas que sofreram com o desequilíbrio mental. Muitas histórias já são bem conhecidas, como a de Van Gogh – que já citei em um texto aqui – a de Sylvia Plath, Virginia Woolf, Bukowski, dentre outros. Mas uma história que eu não conhecia e que, por isso mesmo, me impressionou muito, foi a da escritora neozelandesa Janet Frame.

Segundo Rosa Montero, Janet Frame (1924-2004) desde cedo apresentava desequilíbrios. De origem pobre, sofria abusos em casa e, aos 22 anos, após uma tentativa de suicídio, se internou voluntariamente em um hospital psiquiátrico, onde depois foi mantida à força, ao ser erroneamente diagnosticada como esquizofrênica. Lá, arrancaram todos os seus dentes e ela foi submetida a terríveis sessões de eletrochoque (hoje chamada de terapia eletroconvulsiva). Nos tempos atuais, o paciente recebe relaxantes musculares e anestesia antes de uma sessão dessas, mas imagine como era nos anos 1940.

Pois bem, Janet, que antes de ser internada escrevia poemas, havia concluído o magistério, trabalhava como professora e cursava faculdade de psicologia, passou 8 anos internada à força. Um dia, os médicos decidiram submetê-la a uma lobotomia. Quando a data da cirurgia já estava próxima, um dos médicos foi visitá-la levando um jornal debaixo do braço e deu uma notícia inesperada: um livro de contos escrito por Janet havia sido o vencedor de um prêmio literário. E por esse motivo, aconteceu o que Rosa Montero chama no livro de milagre: o médico não apenas desistiu de realizar a lobotomia, como mais tarde liberou a saída de Janet do hospital psiquiátrico.

Rosa Montero conta ainda outras coisas terríveis que aconteceram na vida de Janet antes e depois da internação e, não sei você, mas eu fiquei realmente impressionada com essa história e, curiosa que sou, fui pesquisar mais sobre a vida da autora. Rosa cita a autobiografia de Janet, chamada “An angel at my table” e eu encontrei no YouTube um filme de 1990 inspirado nessa obra. Vale a pena assistir.

A vida de Janet Frame é, para Rosa Montero, um caso de salvação através da escrita, um exemplo do que ela tenta mostrar ao longo de todo o livro: que a arte é um “esqueleto exógeno” que mantém de pé os mentalmente desequilibrados. A escrita (e a leitura) seria uma tentativa de organização do caos da existência.

“Ninguém percebe que algumas pessoas gastam uma energia tremenda simplesmente para serem normais”, disse Albert Camus. Sim, concordo plenamente: alguns precisam pedalar de modo incessante rumo à intensidade e à beleza para poder acreditar na ilusão da realidade. Para sustentar a frágil estrutura convencional da existência. Para ser capazes de levantar todos os dias, executar as rotinas de que falava Camus, continuar achando que comer e respirar têm algum sentido.”

Perto do fim


“Escrever é uma forma de sobrevivência (…). Não escrever, para muitos de nós, é morrer.”

Ray Bradbury

Agora há pouco, estava tomando café com o Mário e pensando em como concluir esse texto. O final é sempre a parte mais difícil para mim. Lancei a pergunta no ar: Como terminar a newsletter?

Ele (sem fazer ideia do assunto do texto): E foram felizes para sempre.

Eu (rindo): Acho que está mais para “e foram infelizes para sempre”…

Mas continuaram criando, mesmo infelizes. E, segundo a Rosa Montero, porque eram infelizes (os felizes não criam?). Enfim, o que importa é que seguiram enquanto se sentiram capazes de vencer a loucura através da criação.

“A obra está sempre à espreita, assim como a loucura. A questão é saber quem acaba ganhando”


[Texto originalmente publicado na newsletter Página 23]