Quem atinge o valor do que não presta é, no mínimo,
Um sábio ou um poeta.
É no mínimo alguém que saiba dar cintilância aos
seres apagados.
Ou alguém que possa frequentar o futuro das palavras.
(Trecho do poema Rabelais, de Manoel de Barros)

Iniciei o ano de 2022 lendo Manoel de Barros. Ano passado decidi que leria mais poemas, porque, infelizmente, leio poucos. Quando vi o livro Ensaios Fotográficos, imediatamente me senti atraída pelo título, que remete a minha história tanto com a fotografia quanto com a literatura. Tenho um caso de amor com os ensaios – literários e fotográficos.
Sartre dizia que o poeta vê as palavras pelo avesso e que o primeiro contato entre os dois (poeta e palavra) é silencioso. É mais ou menos como quando a gente olha uma palavra escrita num idioma completamente desconhecido. Silêncio. De início, não há significado nenhum. Só que o poeta faz isso com seu próprio idioma. Esvazia as palavras para depois utilizá-las da forma que lhe parece mais adequada e agradável. Não é lindo isso?
Manoel de Barros talvez quisesse dizer a mesma coisa quando escreveu que o poeta frequenta “o futuro das palavras”. O presente é o significado real; o futuro, aquele que o poeta escolherá. É uma brincadeira com as palavras. E é encantador ver Manoel de Barros brincar e se confessar:
“Tenho uma confissão: noventa por cento do que escrevo é invenção; só dez por cento que é mentira.”
O escritor cuiabano diz ainda que poeta é quem enxerga o valor e a beleza das coisas consideradas inúteis, trazendo à luz “a importância do desimportante”. Porque, para ele, “o vencedor no fim das contas é aquele que atinge o inútil dos pássaros e dos lírios do campo”.
Lendo este trecho, lembrei do livro A utilidade do inútil, do escritor italiano Nuccio Ordine. Muita gente considera que a literatura, a filosofia, a poesia são inúteis, porque não têm finalidade prática e não produzem lucro imediato. Baseado em textos de diversos filósofos e escritores, o autor criou um livro-manifesto, que defende que estes saberes e atividades são úteis, sim, já que útil é tudo aquilo que traz crescimento pessoal e nos ajuda a melhorar o mundo.
Apreciar a beleza delicada dos pássaros e dos lírios do campo (e outras flores) faz um bem enorme para a alma. E eu tenho certeza de que se mais pessoas lessem Manoel de Barros (e outros/as poetas), o mundo seria um lugar muito melhor. 🙂
P.S.: {Este texto foi originalmente publicado na newsletter Página 23. Se você quiser receber meus textos no aconchego do seu e-mail todo dia 23, é só se cadastrar aqui. Lá, além dos textos, eu compartilho dicas de séries, filmes, livros e outras coisinhas legais.}
Alguns links:
- No YouTube tem um documentário sobre o Manoel de Barros, chamado Só dez por cento é mentira.
- Sobre o meu caso de amor com os ensaios, você pode ler o texto publicado na Revista Subversa.
- Para comprar os livros citados no texto:
. Ensaios fotográficos – Manoel de Barros
. A utilidade do inútil – Nuccio Ordine
. Que é a literatura? – Jean-Paul Sartre
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