[Desejo de escrita e uma reflexão sobre constância, perfeição e cozinhar feijão]

Alguns meses atrás, publiquei aqui uma crônica na qual falava sobre os sons que ouvia enquanto estava no escritório do apartamento em que morava. Eu estava prestes a me mudar e me perguntava quais seriam os novos sons que fariam parte do meu cotidiano. Hoje, instalada no novo apartamento (mas ainda com caixas para esvaziar), já consigo identificar alguns dos sons e ruídos que fazem parte do meu dia a dia.
Alguns não são tão novos assim. O canto dos pássaros, por exemplo, que era companhia frequente no antigo bairro, também se faz ouvir na rua arborizada onde vim morar. Maritacas, no entanto, ainda não ouvi. Uma diferença é que antes morávamos em um apartamento de fundos e agora moramos de frente para a rua, o que traz algum barulho de trânsito, mas bem pouco, porque a rua é pequena e tranquila. Ouço também o grito do vassoureeeeiroooo. E também aquele conhecido de muita gente, que eu ouvia mesmo quando morava nos fundos: o carro do ferro-velho (“O moço tá passando e tá comprando”).
Outro som familiar (em mais de um sentido da palavra) é o do meu filho tocando guitarra. A novidade é que, agora, ouço também algum vizinho ou vizinha que está aprendendo a tocar flauta. Digo que está aprendendo porque me parece um toque ainda hesitante, aquele vai-e-volta natural de quem está no início do processo de aprender um instrumento. Tenho observado que, quase todos os dias, essa pessoa pratica durante quinze ou vinte minutos o toque da flauta. E essa dedicação me faz pensar sobre a importância da constância no aprendizado de qualquer atividade.
Essa não é uma reflexão nova na minha vida, claro. Já havia pensado muitas vezes sobre isso enquanto via meu filho aprendendo a tocar violão e depois, guitarra. A quantidade de vezes que precisei ouvir “Ô Ana Juliaaaaaaa” enquanto ele aprendia a tocar violão, ou a introdução (se não me engano, há um nome mais apropriado)* de “Sweet Child O’ Mine” quando avançava na guitarra, foi suficiente para me fazer entender que só com muita repetição e constância a gente fica bom em alguma coisa. E o Bruno tinha 11 ou 12 anos quando começou a me ensinar essa lição. Por conta de todo esse empenho, hoje, aos 23 anos, ele já é um músico admirado por muita gente.
Outra coisa que me faz pensar em constância é cozinhar. E preciso dizer aqui que essa é uma atividade que eu não gosto de realizar. Detesto, para ser sincera. Antes da pandemia, tinha uma pessoa que me ajudava e eu só cozinhava de vez em quando. Durante a pandemia, sem poder ter alguém em casa, me vi com a tarefa de preparar refeições toda semana. Antes disso, eu já havia ensinado meu filho e minha filha a fazer alguns pratos básicos e eles me ajudavam, mas o feijão, talvez por medo da panela de pressão, acabava sempre ficando para mim – que também tenho medo da panela de pressão. Bem, antes do intensivão da pandemia, meu feijão era comestível, mas nada incrível. Cinco anos se passaram, eu continuo cozinhando toda semana e hoje meu feijão é… Bem, não, não é incrível. Mas é, sem dúvida, muito melhor do que era em 2020.
E agora, finalmente, eu e você chegamos ao ponto central deste texto: o desejo de escrita. Toda essa introdução foi para dizer que: eu gostaria muito de escrever com mais constância, mas a verdade é que nem sempre consigo. Às vezes passo uma semana inteira sem escrever um parágrafo sequer, o que me provoca angústia. Minha mente é um zum zum zum danado, um ruído constante, faço muitas anotações, coleciono inícios e tenho sempre inúmeras ideias na cabeça, mas poucas delas se concretizam. É a tal da resistência. Por que consigo cozinhar feijão toda semana e não consigo escrever toda semana? Porque feijão não é importante pra mim. Eu nem gosto tanto assim de feijão, faço porque minha família gosta. Mas a escrita… Ah, a escrita é importante. E eu consigo conviver bem com um feijão um pouco mais ou um pouco menos cozido, mas a escrita precisa estar sempre no ponto certo.
Porém, já faz tempo que percebi que esse ponto certo não existe (para a escrita; para o feijão talvez exista). A perfeição, em termos de criação literária ou artística em geral, é inalcançável. O que existe é o processo, que demanda constância para que a escrita melhore com o passar do tempo. E constância não é escrever um texto inteiro de 800 palavras por dia. A vizinha que toca alguns minutinhos de flauta quase todos os dias sabe disso; meu filho, que toca guitarra constantemente, sabe disso; eu sei disso e você também. Só preciso praticar. As anotações que faço, a coleção de inícios, tudo isso faz parte do meu processo de escrita. Preciso aprender a retomá-los em algum momento para que virem algo concreto – não ideal, apenas existente.
É essa palavrinha – ideal – que acaba perturbando muita gente. O ideal é relativo a ideia, ou seja, o que só existe no nosso pensamento, algo incorpóreo, sem materialidade. Voltando mais de dois mil e quinhentos anos e puxando Platão para a nossa conversa, ele faz uma distinção entre mundo inteligível e mundo sensível. O mundo inteligível é onde estão as ideias: lindas, plenas e perfeitas, desfrutando de sua eternidade. Ideais. Já o mundo sensível é esse em que vivemos, precário, corruptível, cheio de coisas que se degradam com o tempo. Para Platão, tudo o que existe no mundo sensível é uma cópia malfeita, um simulacro das ideias que estão no mundo inteligível.
O texto perfeito também só existe enquanto é uma ideia na minha cabeça, pois quando coloco no papel já vira uma cópia imperfeita. É aí que reside o incômodo. Por que tirar a ideia da mente, onde ela está quietinha descansando em sua perfeição, e transformar em um simulacro? Talvez a resposta seja: porque é assim que as coisas são criadas. A partir do ideal, cria-se o possível.
Em algum curso de escrita que fiz nos últimos anos, ouvi da professora que um texto sempre pode ser revisado e melhorado, mas para isso, ele precisa existir. Sem falar naquela máxima que é velha conhecida de todo mundo que já leu algum livro sobre criatividade: feito é melhor que perfeito.
Esse texto aqui, por exemplo, ficou cozinhando (só para voltar à metáfora do feijão) na minha cabeça por muito tempo até que, enfim, consegui escrevê-lo. Ficou igual ao que eu tinha em mente? Certamente, não. Mas agora, que me encaminho para o final, é bom ver que ele finalmente existe, ainda que imperfeito, ainda que nem faça muito sentido juntar feijão, Platão e flauta em um mesmo lugar.** O texto está aqui. E essa presença, para quem gosta de escrever (desenhar, compor, pintar, esculpir), é (deveria ser) o mais importante.
* Perguntei ao Bruno e ele respondeu que o nome é riff.
** Confesso que é justamente essa associação de ideias aparentemente desconexas o que mais me motiva na hora de escrever.
[Texto originalmente publicado na newsletter Página 23]