Arte numa hora dessas?

As primeiras palavras começam a surgir no papel e vem logo a dúvida: será que devo? Uma das minhas missões na vida, eu tenho certeza, é espalhar a literatura por onde eu for. Por isso escrevo resenhas literárias e indico leituras sempre que tenho a oportunidade. Mas quando uma das minhas atividades atuais é escrever sobre livros e outra é escrever um livro, é impossível deixar de pensar que importância tem isso na situação em que nos encontramos. Vale a pena continuar?

O mundo inteiro foi afetado pela pandemia e inúmeras pessoas perderam seus entes queridos, outras tantas estão contaminadas, nos casos mais graves, internadas, lutando para viver. Muita gente perdeu o emprego e a maior preocupação neste momento é como colocar comida na mesa. E qual o papel da arte num momento como esse?

Tem uma frase do escritor francês Théophile Gautier que eu gosto muito: “A arte é o que melhor consola o viver”. É esta frase que me conforta quando não vejo sentido em colocar palavras num papel. Preciso sempre lembrar dela para saber que devo continuar um projeto, por mais dura que seja a condição do momento.

Porque não é fácil continuar quando o presidente do meu país, em vez de apoiar e direcionar a população a tomar as melhores medidas de prevenção, aproveita toda e qualquer oportunidade para dizer disparates, sempre em tom de deboche ou irritação. Não existe bom senso. Como manter a inspiração e a motivação após um pronunciamento catastrófico? Como manter o ânimo? Acompanhar a política do Brasil é um teste de resiliência. Haja estômago. O chefe do Executivo usa o poder do discurso para o mal. Profere palavras que ferem, tiram as nossas forças. Ele banaliza a palavra e banaliza o mal.

Logo a palavra, que para nós é tão sagrada.

Porém, apesar de todo o desânimo, tenho percebido que a frase de Gautier tem feito ainda mais sentido nestes momentos que estamos vivendo. A gente que está em casa, em isolamento, acaba se refugiando na arte como forma de driblar a tristeza e a ansiedade, tão presentes nestes dias. As lives dos músicos, os filmes e séries nas plataformas de streaming e, é claro, os livros, são nossos grandes aliados.

Nós temos visto bem de perto o fundo do poço. E se é verdade que no fundo dele há uma mola, essa mola pode ser a arte. Ela nos resgata do que há de mais sombrio em nós mesmos e do que há de maldade nos outros. Quando a ex-secretária de cultura, que se dizia uma pessoa leve, apareceu na minha tela minimizando as mortes e todo o mal ocorrido no período da ditadura, o jeito foi pôr os fones de ouvido e rebater com uma música de Aldir Blanc na voz de Elis Regina. Essa sim, uma leveza genuína, a leveza da música, que, tal qual a literatura, tem o poder de nos levar para outros cantos. Não faz passar a raiva, mas alivia. E num momento desses, cada segundo de alívio é uma vitória. Quem ri e debocha da morte de milhares de pessoas não é leve, é leviano.

Para o filósofo Arthur Schopenhauer, a vida é como um pêndulo, que oscila eternamente entre o tédio e o sofrimento. Para muita gente tem sido assim este período de quarentena. A cada palavra proferida por aqueles que deveriam nos orientar, mas escolheram nos maltratar, sentimos o sopro da desesperança. Aquele sussurrar ao pé do ouvido que diz que não tem jeito, estamos fadados à ruína. E quando eu me pergunto se devo seguir apesar de tudo, lembro que tenho a arte e que é ela que faz meu peito desapertar, que me dá o impulso que eu preciso para respirar fundo – e até isso o vírus tem nos mostrado: a importância de respirar fundo.

Há alguns meses, li no jornal uma matéria sobre uma fotógrafa agorafóbica que viaja através da internet e fotografa os lugares virtualmente. Ela contornou os obstáculos e descobriu a melhor maneira de seguir fazendo o que amava. Durante aqueles momentos em que viaja pelo Street View, ela vê a beleza de lugares que sofreram, sim, e continuam sofrendo, mas que não se resumem à dor. Assim como o Brasil não se resume aos seus governantes e apoiadores sem nenhuma noção de humanidade.

Eu vou seguir colocando palavra após palavra no papel, mesmo reconhecendo a minha insignificância diante deste vírus minúsculo em tamanho e gigante em poder de destruição. Mesmo me sentindo impotente diante de tanta falta de bom senso. Assim como os músicos devem seguir compondo e tocando suas músicas e os dançarinos devem continuar a fazer seus movimentos cheios de vida. Porque amanhã há de ser outro dia, como já cantou Chico. Não é alienação. É uma tentativa de sobreviver em meio à enxurrada de notícias ruins que recebemos todos os dias.

Quando tudo isso passar, o que é que vai ficar? Eu não quero que fique só o discurso inflamado e patético de alguém que acha que sabe mais do que a ciência. Ou o sorriso debochado de alguém que diz que mortes por tortura são normais, já que “onde há vida, há morte”. É melhor que fique o que há de bonito e de realmente leve. Que fique a música, a literatura, a dança, a fotografia, as artes plásticas. Que fique o que traz alento para a nossas almas tão maltratadas e desesperançadas.

Se Schopenhauer está certo, o meu desejo é que a arte compartilhada nestes dias de confinamento e dor possa preencher com beleza os momentos de tédio e aliviar os de sofrimento. Nós precisamos seguir em frente. Agir no presente, com esperança no futuro. Agora está difícil de acreditar, mas ele vai chegar. Apesar de você, presidente.


P.S.: “Faça boa arte”, como disse Neil Gaiman em um discurso (tem em livro também) e, se puder, ajude quem precisa. Existem diversas iniciativas que procuram combater os impactos da pandemia na vida de milhares de pessoas. No site paraquemdoar.com.br é possível encontrar algumas dessas organizações e ajudar a levar comida e materiais de higiene para pessoas em situação de vulnerabilidade social.


Para ler minha coluna no Diário do Rio, clique aqui.

1 Comment

  1. Disse tudo que vai na minha alma.
    Excepcional!
    Que Deus abençoe os artistas e sua artes.

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