
Muito cedo, lá pelos doze anos de idade, eu já sabia que queria trabalhar com palavras. Apaixonada por literatura, queria escrever, revisar, editar. Porém, apesar da decisão precoce, meu caminho não foi em linha reta. Curiosa demais, sempre tive muitas paixões. Assim como a literatura, a fotografia também me acompanha há muito tempo. Quando ganhei meu primeiro computador, descobri o design gráfico e fiquei encantada. Sem falar das teorias: filosofia e história da arte sempre fizeram meu coração bater mais forte.
E tudo isso acabou fazendo parte do meu caminho: pensando na escrita, entrei para a faculdade de Comunicação – que precisei interromper quando fiquei grávida. Ainda durante a faculdade, fiz diversos cursos de fotografia e comecei a trabalhar como fotógrafa. Quando voltei a estudar, fiz faculdade de Design Gráfico e emendei numa pós-graduação em Artes Visuais. Retomei meu trabalho como fotógrafa e, mais tarde, cursei outra especialização, em História da Arte. Agora, além de escrever, trabalho como revisora e estou cursando faculdade de Filosofia. Ufa.
Certa vez, uma amiga da faculdade de Comunicação me disse que nós duas seríamos “estudantes profissionais”, ou seja, seguiríamos estudando a vida inteira. Concordei. E sua previsão tem se concretizado.
Acontece que várias vezes olhei para trás e considerei minhas escolhas equivocadas e aleatórias. Estudei muita coisa, não tive foco. Porém, nos dias de boa vontade, consigo pensar que – equivocadas ou não – minhas escolhas não foram tão aleatórias assim.
Juntar palavras e formar um conjunto ordenado e de leitura fluida e agradável é o que se tenta fazer ao escrever um texto. É também o que se faz numa diagramação: ordenar textos e fotos de forma que a página fique agradável ao olhar e passe a mensagem pretendida. Com um pouco mais de boa vontade, consigo comparar o prazer de ver uma imagem surgir no revelador (sim, eu sou dessa época) ao prazer de ver um texto aparecer na página em branco. São duas formas diferentes de registrar o mundo, mas as duas nascem do meu olhar. São as minhas formas de recortar o cotidiano.
Há alguns meses, comentei com meu marido que estava sentindo falta de criar. Ora, mas eu não escrevo? E não crio quando escrevo? Sim. Mas o tempo da escrita é outro. É um tempo mais lento, o da paciência, do processo longo. Leva muito tempo para um livro ficar pronto. E apesar de apreciar o processo de escrita, eu estava sentindo falta dos outros processos criativos que já haviam feito parte da minha vida: o da fotografia e o do design gráfico.
Foi em 2017 que eu retomei meu antigo sonho de ser escritora. A literatura me acompanhou durante todos os anos anteriores, em forma de leitura e escrita, mas era coadjuvante. Decidi que era hora de fazer dela a personagem principal. De lá para cá, estudei revisão, preparação e tradução de textos, escrita criativa, crítica literária, ghostwriting… e continuo estudando (estudante profissional, lembra?). Mas, por algum motivo, achei que se eu fosse “designer, fotógrafa, escritora e revisora”, estaria diminuindo minha competência nas questões ligadas à literatura. O engraçado é que sempre admirei pessoas que fazem muitas coisas. Pessoas cheias de vírgulas, como costumo dizer. Mas achei que comigo não funcionava, vai entender. Então decidi que seria apenas escritora e revisora. Como se de repente fosse possível olhar para o mundo sem pensar em composições e enquadramentos. Tentei, não consegui.
Haja terapia.
Quando senti falta de criar, percebi que o que estava faltando na minha vida era aquilo que havia deixado para trás. Eu gosto é da criação – seja de um texto, de uma peça de design ou de uma composição fotográfica. Aproveitei que estava de férias da faculdade e comecei a “brincar” de fazer colagens digitais. Também tirei a poeira da minha câmera profissional para fazer algumas imagens. E o que aconteceu? Voltei a me sentir eu mesma. Eu sou assim, essa pessoa cheia de paixões.
O autorretrato que usei para fazer a colagem que ilustra este texto é da época em que cursava faculdade de Comunicação. A mesma época em que fazia cursos de fotografia. E em que me encantei ainda mais com o design gráfico. Um tempo em que eu sonhava muito e achava que poderia ser tudo o que eu quisesse. Tenho tentado resgatar em mim essa alma sonhadora. Parafraseei o título do livro do James Joyce (“Um retrato do artista quando jovem”) para falar daquela jovem da foto, que era curiosa, criativa e sonhadora. Quando escrevo, fotografo ou crio colagens, volto a me identificar com ela e com seus sonhos.
Estou entendendo que, assim como acontece com as pessoas que admiro, minhas vírgulas não diminuem minha capacidade. Pelo contrário: tudo o que aprendi e continuo aprendendo me torna cada vez mais apta a realizar os sonhos daquela jovem Márcia.
Ela só queria criar.
Você é artista! E vive na arte em suas várias facetas! Quem vive na arte não tem fronteiras nem limites!
Maravilhada ! Viver 91 anos e 6 meses para ler isto !,Já valeu !
Primeira lembraça que ocorre :
Seus pais ( meu irmão) ! Muita emoção ! Aproveitando : fiz Curso Letras UFRJ aos 40 anos idade.
Literatura Brasileira e Portuguesa.
Sobrevivi . . . Beijos. Tia ama !